quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Missões bolivarianas garantem êxito da educação na Venezuela

As missões mudaram a vida dos venezuelanos e são garantia de continuidade da revolução
Desde 2005 não existem analfabetos na Venezuela, segundo dados da Unesco. De acordo com a mesma instituição, o país tem o quinto maior índice de matrículas universitárias do mundo – superado apenas por Cuba, Coreia, Finlândia e Grécia (antes da crise. Os dados são de 2010). O êxito na educação é consequência das missões bolivarianas implementadas pelo governo do presidente Hugo Chávez, como explica a professora venezuelana, Inocência Orellana Hidalgo.

Por Vanessa Silva

O Estado venezuelano garante, constitucionalmente, “o direito pleno a uma educação integral, permanente, contínua e de qualidade para todos e todas com equidade de gênero, em igualdade de condições e oportunidades, direitos e deveres; a gratuidade da educação em todos os centros e instituições educativas oficiais até o nível universitário”, como consta no artigo 6 da Carta Magna.

Mas, há muito ainda para avançar. A coordenadora da especialização em educação de adultos na Universidade Nacional Experimental Simón Rodríguez, Inocencia Orellana Hidalgo, observa que a luta contra o analfabetismo é uma constante: “o analfabetismo foi erradicado, mas sabemos que sempre haverá gente não alfabetizada”. E ressalta que a diferença entre o atual governo e os que o antecederam é que a erradicação do analfabetismo passou a ser “uma política de Estado, com a importância, relevância e recursos necessários para isso”.

O feito – uma das metas do milênio propostas pela Organização das Nações Unidas (ONU) – foi possível com a implantação no país do programa de alfabetização cubano Yo Sí Puedo. “Claro que o método mudou e foi adaptado à realidade venezuelana. Ele tinha suas ‘deficiências’ porque não foi pensado para uma população como a nossa”, explica a pesquisadora.

As missões

“Uma coisa que toda a vida me chamou a atenção é o entusiasmo que nossa gente adulta tem por aprender, seguir estudando. Sempre foi assim, mas não havia estímulo suficiente e com essa missão, muita gente se entusiasmou”.

Como ainda restava uma população excluída, foram criadas as chamadas missões educacionais no país. A Missão Robinson, para erradicar o analfabetismo; a Ribas, para garantir a continuidade dos estudos e que as pessoas terminem o ensino básico e a Sucre, criada para incentivar o término do ensino médio e o ingresso na universidade.

Universidade

Tal como no Brasil, o ingresso de jovens pobres nas universidades gera críticas quanto à garantia de qualidade nas mesmas. Pensa-se em um “nivelamento por baixo”. Sobre isso, Inocencia é taxativa: “existe a crítica e tem que ser procurada uma solução”. Ela conta que algumas universidades organizam estudos preparatórios para os alunos que vêm das missões. Diferentemente dos tradicionais “cursinhos” brasileiros, na Venezuela os Centros de Iniciação Universitária são feitos já na universidade, para nivelar eventuais deficiências que a pessoa possa ter, antes de ela começar os estudos acadêmicos.

Outra diferença é o ingresso dos universitários. De acordo com Inocência, para entrar em uma faculdade na Venezuela, é preciso estar escrito no Conselho Nacional de Universidades. “Para inscrever-se, tem que ter terminado o Ensino Médio e ter se inscrito no Ensino Universitário”. Segundo ela, algumas universidades ainda mantêm as provas (vestibulares), mas não são a regra.

Não são todas as universidades que recebem as pessoas vindas das missões, mas “muitas universidades se abriram para receber esses estudantes, como a Simón Rodrígues, a Unefa (Universidade Nacional Experimental Politécnica da Força Armada Nacional), a Universidade Bolivariana… e foram criadas as aldeias universitárias – que são vários componentes a nível municipal para dar apoio àqueles que querem estudar”.

Técnicos

Problema típico nos países em desenvolvimento, a fuga de cérebros também afeta o país caribenho, “sobretudo nas áreas de medicina e de pesquisadores na área de ciências”, pondera Inocencia.

Para tentar solucionar a questão, foi criado um “programa de estímulo ao pesquisador que creio que está muito bem pensado e muito bem desenvolvido. Agora acabamos de ter o Primeiro Congresso de Ciência e Tecnologia aqui na Venezuela e eu fiquei fascinada e encantada com a quantidade de pesquisadores jovens que se inscreveram e que apresentaram seus trabalhos, em diversas áreas. A esperança é que as pessoas que saíram regressem porque o país necessita e são importantes e tê-los conosco”.

Gargalos

O que falta avançar? “Eu diria que ainda falta muito a ajustar, sensibilizar e formar os professores que vão atender a essa população. Porque não se trata de dar um título por dar. Trata-se de formar, de sensibilizar o participante para que possa prestar um melhor serviço na carreira que escolheu. Porque senão será mais do mesmo. Então nisso falta avançarmos mais”.  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Jacobo Torres: “Venezuela proíbe terceirizações, amplia direitos e reduz jornada para 40 horas”

Sindicalista venezuelano destaca “relevância da Rede ComunicaSul”,  para romper o cerco midiático contra o país”

Por Leonardo Wexell Severo, de Caracas-Venezuela

Jacobo Torres: revolução bolivariana fortalece protagonismo da classe operária

Coordenador Internacional da Central Bolivariana Socialista dos Trabalhadores da Cidade, do Campo e da Pesca da Venezuela (CBST), Jacobo Torres, descreve alguns dos “inúmeros avanços políticos, econômicos e sociais conquistados durante o governo do presidente Hugo Chávez”, tendo como foco a Nova Lei Orgânica do Trabalho, dos Trabalhadores e Trabalhadores, “uma velha dívida da revolução com a classe operária”.

Entre os principais pontos, assegurou o dirigente internacional da maior central venezuelana, “está a proibição da terceirização e da precarização das relações de trabalho, a ampliação de direitos como as licenças maternidade e paternidade, e a redução da jornada para 40 horas sem diminuição de salário”.

Ao assinar o documento, Chávez destacou que a lei, com 554 artigos, é um instrumento que permitirá construir uma "nova cultura do trabalho e de responsabilidade”. Na avaliação de Jacobo, a ação desenvolvida pela Rede ComunicaSul,  “contribuiu para romper com o cerco midiático armado contra o país, dando visibilidade às nossas lutas e às conquistas obtidas”.

Conforme explicita a lei: “O processo social de trabalho tem como objetivo essencial superar as formas de exploração capitalista, a produção de bens e serviços que assegurem nossa independência econômica, satisfaçam as necessidades humanas mediante a justa distribuição da riqueza e criem as condições materiais, sociais e espirituais que permitam à família ser o espaço para o desenvolvimento integral das pessoas e conquistar uma sociedade justa e amante da paz, baseada na valorização ética do trabalho e na participação ativa, consciente e solidária dos trabalhadores e trabalhadoras nos processos de transformação social, consubstanciados com o ideal bolivariano”.

Para a CBST, qual o significado da Nova Lei Orgânica do Trabalho?
Jacobo Torres: A Nova Lei Orgânica do Trabalho, dos Trabalhadores e Trabalhadoras salda uma velha dívida que a revolução tinha com a classe operária. Afinal, transcorreram 12 longos anos para começar a discussão sobre a nova lei. Era um contrassenso, porque a lei anterior protegia os patrões contra os trabalhadores, no mesmo período em que se estava promulgando uma lei revolucionária. É uma proposta de vida que se insere dentro de um projeto de nação, de socialismo. Havia muitas contradições quanto à sua interpretação, principalmente porque foram muitos os direitos que haviam sido retirados durante os anos de neoliberalismo. Antes se aposentava após 30 anos de trabalho, com o valor do último salário. Aí, já recebia no ato um valor equivalente a um mês por ano, 30 meses ou 900 dias. Isso foi eliminado no processo de aplicação das medidas do Fundo Monetário Internacional (FMI), que determinava a retirada de direitos e privatizações, onde a flexibilização era o método de contratação. Chávez chega, paralisa o processo neoliberal e trabalha para a recuperação de empregos e direitos.

Com a adoção do receituário neoliberal, os trabalhadores ficaram, literalmente, a ver navios.
Exatamente. Se acumularam passivos trabalhistas muito grandes, com a quebra de empresas. O Estado precisou atuar. O que para os neoliberais é gasto público, para a revolução é investimento social. Então, o governo Chávez começou a distribuir mais equitativamente os recursos para a sociedade, ampliando os benefícios sociais e trabalhistas.

De que forma a construção da CBST contribui para o desenvolvimento do processo?
Foram muitas idas e vindas, onde tivemos de revisar a nossa situação frente ao processo intersindical. Havíamos cometido muitos erros na formação da antiga central, a União Nacional dos Trabalhadores (UNT), com critérios a partir de correntes políticas, muitas vezes com pouca ou nenhuma representatividade. Eram generais sem tropa. Hoje, os dirigentes têm representatividade, são líderes do magistério, da construção civil, petroleiros, químicos, farmacêuticos. O que nos une a todos é o apoio ao processo revolucionário conduzido pelo presidente Chávez.

A linha de corte é o processo revolucionário.
Este é o nosso entendimento, porque se não somos capazes de sustentar a revolução, com o comandante à frente, que tipo de organização seremos? Durante o processo de fundação da nossa Central Bolivariana Socialista dos Trabalhadores da Cidade, do Campo e da Pesca da Venezuela, em 10 de novembro de 2011, lançamos as bases da nossa organização, com comitês regionais e nacionais. Então, pela primeira vez em muitos anos, o presidente nos acompanhou. Foi o primeiro ato público após a sua convalescença, o que é muito simbólico. Neste evento pedimos ao presidente que dirigisse a redação da nova Lei do Trabalho. Ele disse que iria assinar após uma ampla discussão e garantiu um espaço de consulta e mobilização, proporcionando um rico debate que envolveu a Comissão Presidencial, a Assembleia Nacional, os magistrados da Corte Suprema, ministros, o Banco Central e vasta representação dos trabalhadores para concluir a nova lei. Vale ressaltar que não houve reforma, mas a construção de uma nova lei orgânica para pagar a dívida histórica da revolução com a classe operária.

Como foi este processo de construção?
Somente nossa central realizou 4.700 consultas, entre reuniões e assembleias, com muita participação. Ao longo do processo foram recolhidas 19.200 propostas para a nova lei. Depois disso, uma tarefa titânica foi ordenar, sistematizar esta avalanche de propostas e garantir o caráter revolucionário de seu conteúdo. É uma plataforma para que os trabalhadores se incorporem em melhores condições ao processo. Assim como precisamos garantir o protagonismo do Estado, temos de garantir o papel dos trabalhadores no Estado, a participação da classe na construção da sua própria redenção

Houve o investimento na organização, no fortalecimento da consciência da classe. Isso tem se refletido no aumento das taxas de sindicalização?
Reagrupamos o que existia e hoje temos seis centrais sindicais. A nossa é a maior e reúne 17 federações e oito sindicatos nacionais e mais de 500 sindicatos regionais e locais. Temos concentrado a sindicalização nos setores mais estratégicos, onde a taxa tem crescido, com avanços importantes em ramos como a hotelaria e a vigilância privada. Vale lembrar que o sindicalismo anterior, da CTV, agia como correia de transmissão do patronato. Por isso atuavam com uma concepção tripartite, que chamávamos “trimaldita”, pois sempre abria mão dos interesses de classe. Hoje a lei proíbe o tripartismo, não há negociação sobre direitos. O legislado sempre vale mais do que o negociado.

Em muitos dos nossos países, até por questões táticas, o sindicalismo defende o tripartismo.
Mas aqui estamos em um processo revolucionário, mais avançado, onde o trabalho tem papel preponderante sobre o capital. Na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, nos olharam como se tivéssemos lepra. Na Venezuela não há conciliação entre o explorado e o explorador, como está claro na nova lei do trabalho, pois há um enfrentamento com a burguesia.

Como isso se dá na prática?
Antes o trabalhador era despedido e, para defender seu retorno ao emprego, ele precisava demonstrar que havia sido cometida uma injustiça. Agora se presume a inocência do trabalhador e o patrão é quem tem de justificar as razões e pagar o devido. Agora estamos debatendo os níveis de sanções que vão desde multas até a recontratação. Para isso, o Estado mobiliza o Ministério do Trabalho e até a polícia, impondo o cumprimento da ordem e evitando as demissões massivas. É uma coisa maravilhosa que conseguiu deter os abusos do patronato.

E como ficam as aposentadorias?
Enquanto nos Estados Unidos e na Europa os governos retrocedem direitos sociais e trabalhistas, aqui avançamos. Reduzimos a idade mínima para aposentadoria a 60 anos para os homens e 55 anos para as mulheres. Todos agora têm seguro social, com direito ao salário integral. Antes, o Estado não recolhia e, portanto, depois não pagava. Agora todos recebem, por uma questão de reparar esta injustiça, independentemente de terem ou não contribuído. Comprovada a idade da aposentadoria, todos têm direito, pois é uma necessidade humana e uma responsabilidade do Estado. A terceira idade está protegida.

E a política de valorização dos benefícios?
Aqui, quando se reajusta o valor do salário mínimo, sempre acima da inflação, com ganho real, todos os meses de maio e setembro, os mesmos percentuais são repassados às aposentadorias. Antes era 80% do salário mínimo, hoje é igual, uma questão de justiça com a terceira idade. É bom lembrar que antes da revolução havia quatro tipos de salário mínimo: o urbano, o rural, o de aprendiz e o de eventual. A revolução unificou e ratificou na lei.

O sindicalismo brasileiro está na luta contra a terceirização, por entender que ela precariza as relações de trabalho.
Esta é uma luta importante. Aqui já acabamos com a flexibilização e a precarização. A partir de 1° de Maio deste ano, as empresas têm seis meses para os eventuais ou subcontratados aparecerem como trabalhadores plenos de direitos.

E o governo deu o exemplo.
O exemplo foi dado pelo governo quando nacionalizou as petroleiras da Faixa do Orinoco, a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) absorvendo 60 mil trabalhadores que passaram a ter os mesmos benefícios contratuais. Nossa organização, a Federação dos Trabalhadores do Petróleo, Gás, Similares e Derivados da Venezuela (FUTPV) passou de 40 mil para 103 mil filiados. E fecharemos o ano com 140 mil. Nossa concepção é salário igual para trabalho igual. Da mesma forma, foram registrados os nove mil trabalhadores da metalúrgica Sidor e os quatro mil da empresa elétrica. O trabalho deixa de ser um castigo e passa a ser um direito humano.

Com todos os benefícios, garantias e estabilidade...
Perfeitamente: todos os benefícios, garantias e estabilidade. Além dos direitos sociais e trabalhistas, a revolução avança para garantir educação, saúde, moradia, recreação e energia, que não podem ser mercadoria, mas um serviço comum para todos e todas. O modelo de país que estamos construindo tem este compromisso.

A luta das mulheres também tem se refletido em conquistas...
A equidade de gênero na Venezuela não é só formal. A nova lei do trabalho também reconhece novos direitos: a licença maternidade agora é de seis semanas no pré-natal e de 40 semanas, seis meses, após o parto. Para contribuir neste momento tão importante, o pai tem 15 dias para acompanhar a companheira após o parto, com o casal gozando de estabilidade no emprego por dois anos, pois é uma etapa crucial para a criança.

E o trabalhador jovem?
Existiam mecanismos de exploração muito depravados como os tais três meses de experiência, onde muitos empresários se aproveitavam para sugar ao máximo as energias do candidato, logo substituído por outro nas mesmas condições. Aproveitavam-se, portanto, da alta rotatividade para “reciclar” em defesa do capital, não pagando direitos durante o período. Isso acabou.

A redução da jornada é outro avanço substancial, não só porque abre mais espaço para o lazer, a recreação, a família, como também garante a abertura de novos postos de trabalho...
Claro. Além da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais no setor privado e a efetivação das 36 horas no setor público, sem diminuição de salário, garantimos em lei a obrigatoriedade de dois dias de descanso a cada semana.

O presidente Chávez fala muito da necessidade de “semear petróleo”, colocando-o a serviço da industrialização e do desenvolvimento do país. Qual a sua avaliação sobre isso?
Esta é uma questão essencial para o próximo período. Temos em andamento o Plano Guayana Produtivo e Socialista que começa a impulsionar com força as indústrias básicas, pesadas, trabalhando o alumínio, o aço, a bauxita. De produtores de matérias-primas e semi-elaborados, vamos passar para outro patamar, também aumentando a produtividade. Existem vários contratos com o Irã e a China para começarmos a produzir carros em nossas próprias fábricas, incorporando novas tecnologias, por exemplo.

A dependência externa da Venezuela no setor agrícola sempre foi absurda. No passado, diziam que até ovos e alfaces vinham de Miami. Como o governo vem enfrentando esta situação?
A luta pela soberania alimentar é um dos pontos centrais. Antes chegamos a importar até 86% de tudo que se consumia no país. Hoje começamos a reverter esta situação. Com a colaboração de países como Argentina, Nicarágua e Uruguai, temos trazido gado para a reprodução, aumentando substancialmente o consumo de carne e leite produzido no próprio país. Recuperamos empresas como a Lacteos Andes, que produzia muito pouco enquanto era privada, tendo agora ampliado em muito a sua capacidade. Também começamos a fomentar um modelo de substituição de consumo. O venezuelano come muito pão, mas não temos trigo no país. Então estamos já há tempos substituindo pelo milho, com o que fazemos comidas típicas como a cachapa e a arepa. Temos também muita mandioca no oriente do país.

O investimento na agricultura e nos agricultores passa a ter um papel estratégico.
Sim. Antes tínhamos apenas 3% da população trabalhando a terra, hoje, devido à recuperação de parte das terras ociosas do latifúndio, já são 30%. Em apenas um dos empreendimentos são 19 mil hectares que foram expropriados de uma empresa britânica que tinha a terra para especulação. Agora esse local está cheio de cooperativas camponesas. Há uma volta ao campo, o que também nos ajuda a enfrentar os cinturões de miséria que cresciam nas periferias das nossas cidades. A interiorização do desenvolvimento é feita com mais investimentos, que abrem novas opções de trabalho. Uma classe antes invisibilizada começa a ser produtiva, o que permitiu que o nível de consumo tenha crescido exponencialmente.

Vimos o presidente Chávez falando sobre o aumento no consumo de proteínas, de como isso está repercutindo favoravelmente também na melhoria da saúde do venezuelano.
Precisamos sempre comparar, até para valorizar o que temos ganhado com o processo revolucionário. Houve tempos no nosso país, particularmente no período neoliberal dos anos 1990, onde o governo se curvou ao FMI, que as pessoas chegaram a comer alimento para cachorro (perros, em espanhol), porque eram mais baratos. Assim se comprava “perrarina” e esquentava na  água para os filhos comerem “carne” com espaguete.

Passamos dez dias na Venezuela e pudemos compartilhar uma rica experiência, infelizmente desconhecida da maior parte dos brasileiros.
Precisamos romper com o cerco midiático que tenta manter a desinformação sobre o que está ocorrendo na Venezuela, impedindo maiores adesões à revolução bolivariana. Durante o processo eleitoral tentaram isolar o nosso país a partir de uma oposição dirigida desde Washington. A Foxnews dava Capriles como ganhador da eleição. O ABC da Espanha segue dizendo que houve fraude, apesar da própria oposição já ter reconhecido a derrota. Felizmente a solidariedade com a revolução e com o nosso comandante falaram mais alto. Agradecemos muitíssimo o apoio solidário de Lula e de Dilma, que se colocaram à frente das manipulações da mídia. A declaração de Lula foi no seu melhor estilo, sublinhando que o Brasil e a Venezuela avançam pelo mesmo caminho. Reunindo vários meios alternativos, a Rede ComunicaSul também cumpriu um grande papel. Graças a pessoas como vocês, conseguimos resistir e vencer. Não dá para quantificar esta contribuição, foi uma enxurrada de carinho. Felizmente há a compreensão comum de que caminhos no continente para a conformação de uma só grande nação que é América, fortalecida com o exemplo da revolução bolivariana. Há, evidentemente uma relação dialética entre os nossos avanços e o dos demais países. Se o conjunto não acelera o passo, também se compromete o desenvolvimento interno do processo, pois estamos nos confrontando ao império estadunidense, na máxima expressão da luta de classes.

A máxima expressão da luta de classes.
A luta entre a nação e o imperialismo. Por isso buscamos somar as mais amplas forças para que o país avance no desenvolvimento, na justiça, abrindo caminho rumo ao socialismo. Sabemos que os gringos farão o humanamente impossível para nos derrotar, para impedir mais seis anos de Chávez no poder. Daí também a importância da solidariedade do Brasil e do mundo todo, para que consigamos seguir em frente com a revolução que pertence a toda a Humanidade. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

É feminista o socialismo bolivariano


Valores feministas, banidos tradicionalmente da razão e da política, são recuperados  no socialismo de Chávez. As mulheres aprendem na organização das comunas, junto com os homens, a construir o poder popular.

Por Terezinha Vicente, de Caracas-Venezuela

Alba Carosio
“São as mulheres que governam o mundo”, falou Chávez num dos últimos comícios desta campanha.  Segundo as feministas que conheci aqui, que se reúnem coletivamente na Araña Feminista, reiteradas vezes o presidente venezuelano declarou-se feminista, mas o melhor de tudo é comprovar isso na prática. O fato é que seu governo entendeu que sem igualdade e equidade para todos e todas, seria impossível aprofundar a democracia e construir o socialismo. E as mulheres assumiram o protagonismo da construção da nova Venezuela Bolivariana.  “A participação das mulheres se destaca em todos os âmbitos, político e social, sobretudo na construção do poder popular”,  diz Alba Carosio, vice-reitora da Universidad Central de Venezuela. “São elas que organizam a vida em relação à água, educação, saúde, mobilidade urbana então abraçaram a construção dos conselhos comunais”.

Alejandra Laprea
Embora o modo feminista de ver o mundo sempre tenha existido, mesmo que banido pela História oficial, sua expressão pública vai surgir apenas no século XIX. Suas bases teóricas vão contrapor-se ao patriarcado machista, uma das expressões mais opressoras do capitalismo, percebido por muito tempo e por algumas culturas apenas pelas mulheres. O machismo é um dos traços culturais mais difíceis de superar, pois seus valores combinam perfeitamente com o capitalismo e com os atuais conceitos neoliberais difundidos por seu aparelho de propaganda, os oligopólios da comunicação. “As condições das mulheres aqui ainda não mudaram tudo o que pode mudar”, diz Alejandra Laprea, cineasta e documentarista atuante. “O importante é que se abrem espaços para discussão dessas condições; problemas em discussão, decide-se coletivamente. E o governo tem obrigação de resolver”.
O protagonismo das mulheres na revolução bolivariana tem impulsionado políticas e organismos, como o Banco Mulher, o Ministério do Poder Popular para Assuntos da Mulher e da Igualdade de Gênero, as Defensorias Especiais para os Direitos Humanos das Mulheres, os Tribunais Especiais, etc. Por isso a maioria das feministas venezuelanas apoiam a continuidade do governo Chávez. Elas reconhecem nas Missões, políticas importantes para atacar a desigualdade histórica das mulheres mais pobs: Missão Mães do Bairro, Filhos e Filhas da Venezuela, Missão Amor Maior (Idosos), além de estarmos presentes em todas as demais Missões. Elas citam também leis importantes conquistadas para as mulheres:  Lei pelo Direito das Mulheres a uma vida Livre de Violência, Lei de Proteção à Maternidade, à Paternidade e à Família, e os varios avanços trazidos pela nova Lei Orgânica do Trabalho, das Trabalhadoras e Trabalhadores.

Subjetividade transformada pelo amor
Sandra Angeleri
A organização popular é o traço principal da revolução bolivariana, que pratica a democracia com ampla participação de todos e todas. Nos bairros, são as mulheres o principal sustentáculo da organização local, que começa com os Conselhos Comunais (cerca de 400 famílias), que se reúnem com outros em Comunas, e todos são o Poder Popular que se articula com o Governo, em todos os níveis para o avanço dos programas sociais, aqui denominados Missões. “A prática tem mostrado às mulheres que elas são capazes de transformar”, explica Sandra Angeleri, também da Universidade Central de Venezuela, “e isso transforma sua subjetividade”. Com os valores consumistas propagandeados que conhecemos bem no Brasil, as feministas dizem que antes da revolução a sociedade estava sendo empurrada ao individualismo, à defesa da família nuclear, à competição. Agora, elas concordam comigo, pode-se dizer que a metodologia da revolução é o amor. “E não apenas com os que são iguais a você”, continua Sandra. “É a metodologia de se colocar no lugar do outro, e é uma solidariedade não apenas de classe, é transversal com a diversidade social, com as mulheres, os indígenas, os negros”.
Cada carro do MetroCable divulga um conceito do socialismo
Chávez é um pedagogo, diz Sandra, e basta ver um discurso seu para perceber, ele está sempre ensinando algo. “De origem popular”, explica Alba, “Chávez estudou muito nos anos 90, quando esteve preso por sua tentativa de insurreição, contatou muitas pessoas, não foi um tempo perdido para ele. É uma figura maternal, nada patriarcal, está sempre falando dos cuidados com as pessoas, com as crianças, com os velhos”. Nas entrevistas no Palácio, sempre com um monte de livros ao lado, não é raro abrir algum deles e fazer uma citação para ilustrar o assunto. E esta cidade o tempo todo educa para os valores da solidariedade, do coletivo, da alegria, do direito à felicidade. Mensagens no Metrô, em painéis nas ruas, além das rádios e televisões públicas e comunitárias, claro, cuja programação é aquela com que sonhamos os que querem um outro mundo possível. Há diversas bancas nas ruas vendendo publicações, bastante acessíveis no preço, com a legislação , os direitos e como fazê-los reais, a começar da Constituição em edições pequeninas; o presidente Chávez volta e meia aparece com uma dessas na mão. Realmente, ele é o principal educador deste país.

“Obrigado a todos os amigos e amigas do mundo por suas palavras e seus sentimentos de amor para Venezuela!!!”, publicou o presidente na segunda-feira pós eleições em sua conta oficial de twitter, @chavezcandanga, como foi amplamente divulgado. A mensagem combina com a sua campanha deste ano, cujo principal símbolo foi o coração, num país onde declarações de amor viraram palavra de ordem política! De origem militar, mas humilde, Hugo Chávez é uma figura doce, fala com ternura e não tem vergonha de chorar, de cantar, de mostrar sentimentos e  utilizar palavras e conceitos tradicionalmente tidos como femininos, e excluídos da razão e da política. “Este processo emancipador”, analisa Alejandra, “chega aos homens heterossexuais que se sentem hoje completamente livres para dizer ‘eu te amo’ ao seu líder, a outro varão heterossexual e o amor não é aquele que se diz no ouvido de alguém, se pode gritar numa manifestação, virou palavra de ordem!”

Comunicação comunitária e novos valores ideológicos

No plano econômico, os empréstimos para as mulheres dão preferência aos investimentos coletivos, que devem também ser solidários.  Se comida e costura constituíram os primeiros empreendimentos, hoje já há atividades agrícolas, artesanato, pequenas fábricas de artigos de limpeza, de uniformes, por exemplo. “Elas aprendem todo o processo”, explica Alba, “não só produzir, mas como comercializar, circular a mercadoria; melhora a vida material das mulheres e também educa para a organização. Embora o ganho financeiro seja difícil, o crescimento pessoal é muito grande”. Isto explica o crescente engajamento do povo na construção do projeto chavista, que explica o crescimento do índice de participação popular numa eleição sem voto obrigatório, o que garantiu a diferença da vitória para Chávez.
Bancas assim estão por toda a cidade

“A oposição diz que a educação é ideológica e nós dizemos que todas o são”, afirma Alba. O fato é que, comunicados do governo, discursos do presidente, mensagens nos serviços da cidade e, sobretudo, a programação das televisões públicas e comunitárias, estão permanentemente educando para novos valores, do socialismo do século XXI. Eu vi muitos programas na televisão pública sonhados por nós feministas.  Temas como segurança e soberania alimentar são frequentes, desde a importância de comer frutas e não embutidos, a denúncias da manipulação dos alimentos no mundo, do envenenamento pelos agrotóxicos, assuntos prioritários para o movimento de mulheres no mundo. Fora o debate do socialismo em oposição ao capitalismo, permanente, com visões a escolher, é só mudar de canal. Se há uma coisa inegável aqui é a existência de liberdade de expressão; só que agora não existe apenas o discurso do mercado nos meios de comunicação privados.

Uma intensa programação, cultural e jornalística, é levada ao povo pelas emissoras públicas e cumprem papel especial os meios comunitários, rádios e televisões, que crescem e se fortalecem por toda a Venezuela. “Nos momentos de crise, quando o povo quer saber a verdade, todos buscam as comunitárias”, afirma Alejandra, que atua como documentarista, para a televisão, inclusive. “Os meios comunitários aprenderam sua importância no enfrentamento do golpe de 2002”, continua. “E o governo se deu conta da importância da democratização dos meios, pois viu que apenas os comunitários o defenderam!” A música é outro direito na educação aqui, para todas as crianças, existe um sistema de orquestras famoso no mundo. Painéis e grafites estão por todos os muros da cidade, assinados por “Coletivos muralistas”, muitos com mensagens educadoras para o socialismo.

“No coletivo, aprendemos que a cultura está aqui, a nossa força está aqui...”, diz uma das peças de propaganda na televisão. A solidariedade com os que tem menos, com aqueles atingidos por acidentes climáticos, por exemplo, é mostrada o tempo todo como valor fundamental, em contraposição ao individualismo consumista que reclama dos serviços nos canais da oposição, que pede mais segurança e menos “salvação da humanidade”. Não sabemos até onde irá esse processo, pois quase metade do povo venezuelano expressa os valores colocados pela propaganda da direita e, tal como aqui, o preconceito e a discriminação com a inclusão dos pobres em meio à classe média aparece bastante. Em contraposição, a valorização da participação de cada cidadã e cidadão, o poder como um direito individual intransferível, eleva a autoestima do povo o tempo todo. E uma coisa é fato: homens e mulheres venezuelanos vivem numa absoluta democracia, radicalmente participativa, cuja experiência singular faz o povo protagonista da História!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Participação social é a marca do governo Chávez, diz Eva Golinger

Eva Golinger: mídia comunitária ajudou a democratizar o país
Antes da primeira eleição de Chávez, a Venezuela “era um país onde as pessoas se sentiam invisíveis, não se identificavam com seu processo político. Agora é um país onde elas pensam, criticam, debatem, participam”. A afirmação é da jornalista, escritora, advogada e pesquisadora venezuelano-americana, Eva Golinger.

Por Vanessa Silva e Leonardo Severo, de Caracas-Venezuela


Nascida em Nova York e filha de venezuelanos, Eva ganhou o prêmio de Jornalismo do México e ao longo dos anos tem pesquisado a fundo a ingerência dos Estados Unidos na Venezuela e em outros países da América Latina, sendo uma das principais defensoras da revolução boliviariana. Nesta entrevista ao ComunicaSul, a renomada intelectual defende a lisura do processo eleitoral venezuelano e critica a postura dos grandes conglomerados de comunicação – na Venezuela e no estrangeiro - que atuaram abertamente para  “desestabilizar o processo”.

A ativista também aponta os avanços conquistados na área da comunicação e ressalta a importância dos meios comunitários na conquista e manutenção da soberania do país.

Equipe do ComunicaSul com de Eva Golinger/
Foto: Márcio Schenatto
ComunicaSul: Como você avalia a cobertura da mídia no processo eleitoral venezuelano?
Eva Golinger: Há uma campanha já há muito tempo contra a Venezuela e o processo liderado pelo presidente [Hugo] Chávez. Em particular, nesta campanha estiveram tentando desacreditar e deslegitimar o sistema eleitoral do país, apesar dele ter sido reconhecido como o melhor do mundo. Aqui falam que Chávez é beneficiado pelos meios públicos que sempre transmitem os eventos oficiais, mas, ao mesmo tempo, o candidato opositor teve apoio de empresas e de grandes meios privados do país – que na Venezuela são maioria e, sem dúvida, têm mais audiência que os públicos.

Este governo fortaleceu os meios comunitários. Qual a importância que a comunicação alternativa tem para o desenvolvimento do país?
Antes de Chávez não existiam meios comunitários, alternativos, como existem agora. Estavam na clandestinidade, tinham que trabalhar de maneira secreta e não havia nenhum apoio. Não digo nem financeiro, mas apoio moral, político, estratégico. Sob a Constituição da República Bolivariana da Venezuela, aprovada em 1999, cria-se a figura dos meios de comunicação comunitários, como um direito que o Estado tem que apoiar com recursos. Tem outra lei aprovada em 2004 [Lei de Responsabilidade Social no Rádio e na Televisão - Resorte] – que foi muito distorcida pelos meios de comunicação privados. A lei amplia o espaço para a criação de comitês de usuários e usuárias dos meios, para que sempre haja uma auditagem da informação que se está reportando e as comunidades que estão representadas.

E que mudanças substanciais esse processo provocou?
Hoje, diferentemente de 10 anos atrás, quando houve um golpe aqui e os meios de comunicação privados tiveram um papel fundamental [os grandes canais de TV apoiaram o golpe]. Meios comunitários quase não existiam, não tinham força, nem poder e, assim, conseguiram censurar a informação das pessoas. Hoje, isso não pode acontecer. Os meios comunitários não são a maioria, nem têm a maior audiência, mas através da internet, das redes sociais, podem assegurar que sua voz se escute, se expresse, e podem ocupar os espaços que antes não tinham. Os meios comunitários são fundamentais para garantir a soberania do país

Existe um movimento de solidariedade em apoio à Venezuela, como pode ser observado pela quantidade de acompanhantes internacionais que vieram ao país. Como vês isso?
Creio que tem muita mobilização mundial pelo que aconteceu na Venezuela nesses últimos anos, pela transformação social que existe aqui. Apesar de todas as suas falhas e imperfeições, as coisas aqui mudaram muitíssimo. Há muito mais reivindicações de direitos sociais, de direitos econômicos, culturais, inclusive direitos políticos e civis. Então há movimentos mundiais de artistas e intelectuais que apoiam este processo. Há, evidentemente, outros que criticam. E acho bom que, pela primeira vez na história, a Venezuela seja tema de debates, trocas dentro dessas comunidades de artistas e intelectuais a nível mundial. Me fascina que queiram estudar, analisar, que aprendam tanto com as falhas, como com as conquistas. E que logo possam, em seus próprios países, avançar para mais justiça social. Esse é o objetivo principal do que é a Revolução bolivariana.

Na sua avaliação, qual é a maior conquista dessa revolução?
Para mim, a maior conquista é a participação social, seja chavista, da oposição, ou desvinculada, as pessoas estão participando. Não é uma sociedade que tem apatia, mas que participa porque sabem que sua voz tem importância. Eu vivi aqui antes de Chávez ganhar pela primeira vez em 1998 e era outro país. Era um país onde as pessoas se sentiam invisíveis, não se identificavam com seu processo político. Agora é um país onde as pessoas pensam, criticam, debatem. A juventude de todos os setores políticos da Venezuela está ativa. Em quantos países do mundo se pode dizer isso? Que a juventude (estou falando de adolescentes, dos que estão entrando na universidade) quer participar da política, da construção do seu país? Isso a maior parte dos governos do mundo não podem dizer. É isso que Chávez está conseguindo com essa revolução, é esse ânimo para melhorar seu país, seja qual for a orientação política. Então, para mim, essa é a conquista principal.

Venezuela: um exemplo para o exercício da liberdade de expressão


por Renata Mielli, de Caracas

É no mínimo leviano que um jornalista, intelectual ou qualquer pessoa que tenha estado na Venezuela saia daqui e diga que o governo de Hugo Chávez pratica a censura e cerceia a liberdade de imprensa.

Em menos de 10 dias, o presidente da República convocou 2 coletivas de imprensa, abertas a todos os veículos – comerciais, públicos, comunitários, alternativos, imprensa sindical e dos movimentos sociais – nacionais e internacionais.

Na coletiva desta terça-feira, 09, o presidente reeleito afirmou: “Se alguém quiser ver uma democracia sólida e vigorosa, venha a Venezuela. E lembrando de uma questão feita por uma jornalista argentina do porque é tão difícil transmitir ao mundo que aqui existe uma democracia” – Chávez respondeu – “é a ditadura midiática”. E salientou “sem participação popular qualquer modelo de democracia é falso”.
Hugo Chávez disse que recebeu uma ligação da presidente da Argentina no domingo. “Cristina estava preocupada porque alguns meios divulgaram – sem a menor objetividade, sem a preocupação de verificar a informação – notícias dizendo que estava empatado o resultado das eleições aqui. Para vocês verem, não derrotamos só a Capriles e a oposição mas uma coalizão internacional de muito poder”.

As emissoras de televisão, os jornais, revistas e rádios gozam da mais ampla liberdade de imprensa. Nas bancas de jornais, diariamente, as manchetes dos principais veículos são de contestação do governo bolivariano, de promoção das posições e propostas da oposição. A própria família do candidato Henrique Capriles é proprietária de uma cadeia de veículos e de um dos principais jornais do país, o Últimas Notícias.

Imprensa livre, neutra não

O processo de radicalização política que vive a Venezuela, fruto do avanço da revolução bolivariana, reflete-se na cobertura da mídia, que deixa explícita suas posições – seja a favor do projeto político em curso no país, seja contra.

Os meios de comunicação não se escondem sob a máscara da neutralidade e imparcialidade e isso não é um empecilho à liberdade de expressão e de imprensa, pelo contrário, é fator de aprofundamento da consciência e forma de permitir ao povo que construa seu próprio ponto de vista a partir do embate político e ideológico que se estabelece publicamente.

Democratização do espectro radioelétrico

A questão das concessões de rádio e televisão – em particular após o governo de Chávez não ter renovado a concessão da RCTV – é um aspecto central para democratizar o acesso plural aos dois principais meios de comunicação de massa – o rádio e a televisão. Como no Brasil, o modelo de exploração do espectro radioelétrico que se adotou na Venezuela foi o da concessão para meios privados

Desde que assumiu a presidência, o presidente Hugo Chávez e seu governo tem procurado reduzir a concentração dos meios – caracterizada pela ex-ministra das comunicações, Blanca Eekhout como um latifúndio midiático. Iniciou-se um fortalecimento dos meios comunitários e públicos, com políticas de incentivo e facilitação das outorgas.
Dados da Comissão Nacional de Telecomunicações, mostram que em 1998 existiam 40 concessões de televisão na Venezuela. No início deste 2012 são 150 canais, sendo 75 na TV aberta e 75 canais a cabo. Dos canais com sinal aberto, apenas quatro têm alcance nacional, outros 71 são TVs regionais privadas, estatais ou comunitárias.

Cobertura internacional sem barreiras

O processo eleitoral na Venezuela contou com a presença massiva da imprensa internacional. Números de credenciamento no CNE apontam mais de 2 mil jornalistas estrangeiros no país.

Durante a coletiva de imprensa com o presidente Hugo Chávez, da qual participaram mais de 160 jornalistas, o clima era de satisfação com o ambiente tranquilo e sem restrições para o trabalho de cobertura das eleições.

A jornalista da CNN espanhola, Patrícia Janiot, disse que em anos de cobertura eleitoral na América Latina esta foi a primeira vez que viu uma situação tão exemplar. “O presidente Hugo Chávez inunda o ambiente com esse carisma. Ele teve a gentileza de me dar a oportunidade de fazer uma pergunta que não estava pautada, teve a gentileza de se aproximar de mim quando a coletiva terminou. Estes são sinais de que não nos sentimos ameaçados de nenhuma maneira, e não sentimos que há nenhuma hostilidade com a imprensa estrangeira.  

Direita usa medo para conter avanços

por Renata Mielli, de Caracas

Não é de hoje que a direita se utiliza da tática de amedrontamento para impedir o avanço de projetos progressistas e que signifiquem uma ameaça a sua hegemonia política.

Recentemente, no Brasil, a atriz Regina Duarte se prestou ao papel de porta-voz desta tática. Na Venezuela ocorre o mesmo. Os meios de comunicação comerciais venezuelanos e seus aliados internacionais constroem sistematicamente a imagem de um país conflagrado, aonde a violência impera nas ruas. Este foi um dos temas mais explorado por Henrique Capriles durante sua campanha.

Todos com quem comentei que viria a Caracas me pediram cuidado, disseram para eu não caminhar sozinha pelas ruas, porque era uma cidade muito violenta, etc etc. Não vi nada disso aqui. Vi uma cidade como todas as outras, aonde as pessoas andam tranquilas, sem sobressaltos. Não presenciei nenhum ato de violência. Pelo contrário, vi praças cheias de gente tomando sorvetes, sentadas nos bancos – praças limpas e efetivamente convertidas em espaços de sociabilidade – muito muito diferente do que ocorre em São Paulo, por exemplo. Muitas mulheres com bebês, crianças, idosos.

Um dos canais de televisão mais ferrenhamente opositores ao governo bolivariano – Globovisión – centra sua programação na divulgação da violência. Aliás, pessoas que apoiaram a candidatura de Capriles criticavam a programação da TV e dos jornais, que centram sua cobertura de forma sensacionalista na violência – o que acaba sendo um estímulo a ela.

Policial com formação universitária

Lógico que há violência e crime na Venezuela, e o governo bolivariano reconhece que este é um aspecto que ainda exige avanço. Mas há muitas ações em curso para enfrentar este que é um problema não só da Venezuela.

Uma das principais iniciativas é valorizar a profissão policial, dando formação universitária aos policiais. A Universidade Nacional Experimental da Segurança forma homens e mulheres para ter uma abordagem mais humana e cidadã, preparando os efetivos para enfrentar conflitos de maneira pacífica. Os policiais estão integrados à comunidade e estão focados na prevenção da violência.

Recentemente, 9 mil jovens se graduaram na universidade policial, atendendo ao chamado para engrossar as fileiras do combate a violência.

A segunda é investir massivamente na educação da sociedade. Mensagens contra a violência, estímulo ao desarmamento da população, e reforçando valores positivos como altruísmo, solidariedade, ética, humanismo - focando na transformação da consciência das pessoas - é outro instrumento poderoso de combate à violência.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Depois de um dia de votação tranquilo, Chávez é reeleito

Veja como foi a votação na Venezuela que reelegeu o presidente Hugo Chávez.





Venezuela: Socialismo triunfa e enche América Latina de esperança


Multidão saúda vitória de Chávez no Palácio de Miraflores: "foi a vitória perfeita", afirmou Chávez
Com 54,42% dos votos, o presidente Hugo Chávez Frías foi reeleito na Venezuela e governará o país no período de 2013 a 2019. O candidato da oposição, Henrique Capriles, obteve 44,97% e ganhou em apenas quatro Estados dos 24 que compõem a Venezuela. Em uma verdadeira festa cívica, 81% dos venezuelanos compareceram às urnas, mesmo o voto não sendo obrigatório no país.

Apesar da expectativa de que o candidato da oposição pudesse não reconhecer o resultado revelado pelas urnas, Capriles admitiu sua derrota e rejeitou a ação de setores radicais. O candidato fez também um chamado para que "nosso povo não se sinta perdedor. Quem foi derrotado fui eu”, afirmou. E agradeceu aos mais de seis milhões de venezuelanos que votaram nele.

Diante de dezenas de milhares de manifestantes que tomaram a frente e as imediações do Palácio de Miraflores na noite de domingo (7), o presidente Hugo Chávez agradeceu aos mais de oito milhões de venezuelanos que lhe garantiram um novo mandato.

Acompanhado pela família e por lideranças no balcão presidencial, o líder bolivariano agradeceu a multidão e ressaltou que o povo "votou pela revolução, pelo socialismo e pela grandeza da Venezuela”.

Independência e integração

Chávez fez questão de ressaltar que o primeiro e principal objetivo de seu novo mandato já foi conquistado que “não é outro que ter conservado o bem mais precioso que conquistamos depois de 500 anos de luta: a independência nacional”.

A expressiva vitória conquistada nas urnas, enfatizou o presidente, demonstra que “Não haverá força imperialista, por mais forte que seja, que possa com o povo bolivariano. Venezuela nunca mais voltará ao neoliberalismo, seguirá transitando para o socialismo bolivariano do século 21". E reiterou que “hoje ganhou a América Latina”.

Imediatamente, milhares de vozes entoaram o grito “alerta, alerta que caminha a espada de Bolívar pela América Latina”, fazendo tremular bandeiras do Brasil, Cuba e Argentina, entre outras, num colorido que expressava o espírito da integração solidária do continente.

Cordialidade

Em tom cordial, Capriles pediu que Chávez trabalhe por todos os venezuelanos e parabenizou o comandante por sua vitória. “O que o povo diz está dado e respeito sua palavra”. Por sua vez, o presidente também fez um “reconhecimento especial à oposição, que não fez planos desestabilizadores. Assim que se joga na democracia”, exclamou.

domingo, 7 de outubro de 2012

Elecciones en Venezuela 07-octubre

Catraca livreAvanço na educação e saúdeAngelica RuizEmpoderamentoSolidariedade francesaRevolução das crianças
PatriotismoRecepção a ChávezComemoraçãoVizinhança unida

Álbum eleições 07 de outubro

Bairro 23 de Enero recebe Chávez com "arsenal de carinho para semear a Pátria"

Multidão espera Chávez no bairro 23 de Enero/ Foto: Leonardo Wexell Severo

Aos poucos vão chegando. Os sorrisos brotam e a emoção toma conta em um êxtase coletivo no populoso e revolucionário bairro de Caracas, no 23 de Enero. O sentimento de irmandade e de autoconfiança vai cativando, deixando impregnada cada flor ostentada como tributo ao comandante que semeou programas sociais, por aqui chamados “missões”.

Por Vanessa Silva e Leonardo Severo, de Caracas-Venezuela

Yeisa Rodriguez, analista de uma corretora de seguros
Sorriso confiante, com brincos estampando a figura de Chávez, Yeisa Rodriguez deu seu primeiro voto ao presidente. “Graças ao meu comandante, este país agora é outro. O programa de inclusão universitária nos abriu portas. Progredir não é mais um sonho, e sim uma realidade.” Sua mãe lhe impulsionou os primeiros passos no chavismo, reforçado pelos substanciais investimentos realizados pelo Estado venezuelano na área social que lhe possibilitaram entrar na faculdade (o país é hoje o quinto em número de matrículas universitárias no mundo).

“Pela vida, pelo amor, que de teu voto nasça uma flor”, diz o cartaz segurado por uma jovem. Ao fundo, a música do cantor e compositor Ali Primera, ícone de várias gerações de venezuelanos que se levantaram pela redenção da Pátria, impregna o ambiente: “Busquem o sol maravilhoso da libertação”. A mensagem ecoa. Reverbera. Nos comove por dentro. Um refrão que viola a cartilha dos neoliberais, e que embala um governo que está utilizando o lago petrolífero que banha o país para impulsionar o desenvolvimento com justiça social.

Um cântico que é um chamado à luta, à negação do individualismo exacerbado, da lógica do agachamento às determinações do FMI e do Banco Mundial, do servilismo ao sistema financeiro e às transnacionais. Um hino à solidariedade, ao humanismo e ao latino-americanismo, valores que se confrontam a tudo o que significa a candidatura do oposicionista Capriles.

Voto em família

Comunidade do 23 de Enero ressalta conquistas

No 23 de Enero, destaca Gertrudes Fuentes, que levou os netos para votar com ela – todos exibiam o mindinho manchado de tinta, como se tivessem, também eles, votado – temos diversas razões para votar em Chávez. “Temos muitas missões aqui: a missão Mercal [que garante alimentos a preços acessíveis]; a Missão Sucre [programa educacional]; a missão Amor Maior [que garante aposentadoria a idosos independentemente de terem ou não comprovada sua condição de trabalhadores]; a missão Vivienda [programa que neste ano já entregou 90% das 350 mil moradias previstas para 2012]; Madres del Barrio [para acabar com a pobreza extrema no país], Missão Cultura e Casa Equipada [para que pessoas com baixa renda possam equipar suas casas].
Emocionada, não deixou de declarar o voto. “Por 14 anos votamos no Chávez. Há 13 anos ele vem aqui votar e o povo o espera. Sabemos que ele vai ganhar porque outro presidente como ele não vamos ter nunca mais. Ele é um homem muito bom e não tanto pelo que dá a uma pessoa, mas pelo que dá ao povo, que sempre esteve miserável de tudo. Ele deve seguir sendo o presidente da Venezuela. A vida será muito melhor para todos.”

Amigos de Lula

Deixando de lado o batalhão de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas que aguardava o presidente na Escola Técnica Robinsoniana Manoel Fajardo, subimos a montanha um pouco mais. Bem próximos a um grande conjunto habitacional, vários senhores aposentados degustavam sua cervejinha Polar. Identificados como brasileiros, chamados de “amigos de Lula”, rapidamente ganhamos nossas primeiras cervejas – embora em meio à lei seca – bem gelada. Logo mais uns salgadinhos para acompanhar. Na roda, com exceção de um senhor que votou por Capriles, todos os demais eram chavistas.

Morador do bairro desde os anos 1970, Hernan Hernandez, destacou que “Chávez recuperou nossa soberania e dignidade”. “Não somos mais quintal dos Estados Unidos, somos gente e não animais. Temos agora direitos, princípios, normas e leis para obedecer. Isso não existia. Chávez e Lula são dois homens que precisamos respeitar, pois lutaram por um país livre”, declarou.

“Aqui ninguém é mais do que ninguém, o povo é soberano”, emendou Jose Alejandro Mosqueda, apontando para o posto de saúde em frente, onde uma médica cubana presta atendimento “com muita atenção humana e excelente qualidade técnica”.

Único oposicionista da turma, René Alias Nene declarou seu voto na oposição por achar, “como diz a televisão, que o governo deveria investir mais no próprio país, antes de sair doando petróleo para a América Latina”. O discurso xenófobo e anti-integração de Capriles é reforçado pelos grandes conglomerados privados de comunicação, que acusam o governo de “regalar” petróleo a países como Bolívia, Cuba, Nicarágua e Uruguai. “René repete o que não é verdade. O que Chávez fez foi investir na integração com relações respeitosas, de reciprocidade, de solidariedade. Na verdade, a direita não quer a nossa unidade”, enfatizou Hernan Hernandez, garantindo uma nova rodada de cerveja aos “hermanos brasileños”.

Para Dany Fuentes, maior avanço deste governo foi na saúde
Na caminhada, algo inusitado, deparamo-nos com um estudante de medicina morador do bairro já no sexto ano da universidade, Dany Fuentes. Não por acaso, o jovem aponta como principal êxito da revolução bolivariana os avanços na educação. Acompanhado pela mãe orgulhosa, afirma que “na Venezuela tínhamos grandes índices de analfabetismo e agora não existem analfabetos. Também a Missão Vivenda é muito importante para a população. Antes, era muito deplorável”. Questionado sobre o futuro, é taxativo: “continuarei aqui e vou trabalhar na comunidade”. Demonstrando que interiorizou os valores da medicina cubana – expressados por seus mestres vindos da ilha - conclui que para ser médico, [não basta somente atender as pessoas, mas atender totalmente a comunidade. Porque ao resolver os conflitos sociais, cura-se o ser humano].

El comandante

Finalmente, chega o comandante, consumando a festa. Em meio a bandeiras venezuelanas, cartazes de Bolívar e grandes pichações exaltando Marx e a Comuna de Paris, Chávez registra seu voto e em seguida, exalta a reafirmação da democracia. Acompanhado pela ex-senadora colombiana e lutadora pela paz, Piedad Córdoba; pela líder indigenista guatemalteca, Rigoberta Menchú e o ator estadunidense, Danny Glover, o presidente disse ter a certeza de que “os líderes de todos os setores [da situação e da oposição] estarão à altura da lição que está dando o povo venezuelano. Como disse Jimmy Carter, esse é o melhor sistema do mundo. Nossa América amadureceu” E ressaltando a importância da integração latino-americana, pontuou: “estamos fazendo um chamado para a consolidação como uma zona de paz com a Unasul e a Celac. Estou muito feliz neste dia de paz, de festa e democracia”.

As urnas só fecham quando o último terminar de votar e não há pesquisa de boca de urna. Os resultados só são revelados quando não é mais possível qualquer reversão.